A família da criança é sempre uma
Na sociedade atual observam-se mudanças importantes nas dinâmicas familiares, nomeadamente um aumento do número de separações e divórcios. Durante muito tempo, prevaleceu a ideia de que a criança deveria ficar principalmente aos cuidados da mãe, por se considerar o amor materno inato e insubstituível, sendo a residência com o pai equacionada apenas em situações excecionais.
Atualmente, assiste-se de forma crescente a um exercício partilhado da parentalidade, no qual pais e mães participam nos cuidados, nas decisões e no acompanhamento quotidiano dos filhos e filhas.
A separação põe termo à relação conjugal, mas não à relação parental. Entre pais, mães e filhos ou filhas não existe divórcio.
Explicar a separação à criança
O modo como a criança se ajusta à separação ou ao divórcio depende, em grande medida, da forma como os progenitores conduzem o processo. Sempre que possível, devem dar-lhe uma explicação adequada antes da separação, ajudando-a a compreender que não é responsável pelo que está a acontecer e que ambos continuarão a gostar dela e a cuidar dela.
São frequentes as situações em que os progenitores nada dizem. Por vezes, não sabem o que dizer ou como dizê-lo. Noutras situações, consideram que a criança é demasiado pequena para compreender ou acreditam que ela já se apercebeu do que se passa e que, por isso, não é necessário falar sobre o assunto.
A ausência de uma explicação adequada e atempada pode deixar a criança a tentar interpretar sozinha as mudanças que observa. Pode também contribuir para sentimentos de culpa, insegurança ou abandono. A informação deve ser verdadeira, simples, ajustada à idade e transmitida sem responsabilizar ou desvalorizar nenhum dos progenitores.
Proteger a criança do conflito
Após a separação, a criança deve ser protegida dos conflitos entre os progenitores. A exposição continuada a discussões, acusações e mensagens negativas pode afetar o seu bem-estar e manifestar-se de formas diferentes consoante a idade e as características individuais.
A criança pode ainda viver um conflito de lealdades, sentindo que gostar de um progenitor, estar bem com ele ou manifestar afeto significa trair o outro. Esta situação pode ser particularmente difícil, porque coloca sobre a criança um conflito que pertence aos adultos.
A criança não deve ser utilizada como mensageira, confidente, testemunha do conflito ou intermediária entre os progenitores. Deve poder gostar livremente do pai, da mãe e das respetivas famílias.
Duas casas não significam duas famílias
Muitas crianças passam a viver entre duas casas após a separação dos progenitores: a casa da mãe e a casa do pai. Ter duas casas não significa ter duas famílias. A família da criança é, e continuará a ser, uma, porque as relações familiares não dependem de todos viverem na mesma residência.
A criança tem necessidade e direito de manter, sempre que isso seja seguro e compatível com o seu superior interesse, uma relação afetiva positiva e significativa com ambos os progenitores e com as respetivas famílias. Avós, irmãos, irmãs e outras pessoas próximas também fazem parte da sua história, identidade e rede de afetos.
Duas casas podem fazer parte da mesma família. O que une a criança aos seus progenitores não é uma morada comum, mas a continuidade dos cuidados, dos afetos e da presença na sua vida.
O convívio deve fazer parte da vida quotidiana
O padrão tradicional em que a criança reside com um progenitor e convive com o outro apenas em fins de semana alternados pode ser insuficiente, sobretudo para crianças mais pequenas. A sua noção de tempo é diferente da dos adultos e períodos prolongados sem contacto podem ser vividos como uma ausência muito longa.
O convívio regular deve permitir que ambos os progenitores participem em diferentes dimensões da vida da criança. Não deve limitar-se a momentos de lazer. Refeições, rotinas escolares, brincadeiras, passeios, descanso, cuidados de saúde e pernoitas podem contribuir para a construção e consolidação das relações afetivas e parentais.
A organização concreta deve atender à idade, às necessidades, às rotinas, à distância entre residências e às circunstâncias de cada família. O essencial é que a criança possa manter relações estáveis, próximas e significativas, sem ser colocada no centro do conflito.
A separação não tem de destruir a família
Uma separação ou um divórcio provoca mudanças importantes na vida da criança, mas essas mudanças não têm de ser necessariamente negativas. O impacto depende, em larga medida, da capacidade dos progenitores para cooperarem, comunicarem de forma responsável, protegerem a criança do conflito e assegurarem a continuidade das suas relações familiares.
A relação conjugal pode terminar. A parentalidade permanece.
Rute Agulhas
Psicóloga e terapeuta familiar
Texto revisto na ortografia, organização e apresentação, preservando o conteúdo e a mensagem essenciais do artigo original.
Última revisão editorial: julho de 2026.
