10 descobertas surpreendentes sobre parentalidade partilhada após o divórcio ou separação

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Mother and parents swinging girl on beach — Image by © Les and Dave Jacobs/Corbis

20 de junho 2017

10 descobertas surpreendentes sobre parentalidade partilhada após o divórcio ou separação

por Linda Nielsen

 

Qual é o plano parental mais benéfico para as crianças depois dos seus progenitores se separarem ou divorciarem? É melhor para as crianças viverem principalmente ou exclusivamente com um progenitor em residência única e terem períodos de convívio/contacto com o outro progenitor cuja duração pode ser variada conviverem um conjunto variado de tempo com o outro progenitor? Ou estas apresentam melhores resultados quando vivem com um dos progenitores pelo menos 35% do tempo em regime de residência alternada ou coparentalidade? Além disso, será que  a residência alternada é benéfica quando existe um conflito forte e continuado entre os progenitores E será apenas escolhida por, e apropriada para, um grupo muito seleto de progenitores – aqueles com rendimentos mais elevados, baixos níveis de conflito, e relações mais cooperativas, que à partida chegam a um acordo mútuo de partilha  voluntariamente?

Para responder a estas perguntas, fiz uma revisão de 54 estudos que comparam resultados dos desempenhos de crianças a viver em famílias com residência alternada e residência única, independentemente do rendimento familiar e do conflito parental. Num outro estudo recente, examinei todos os estudos que comparam os níveis de conflito e a qualidade dos relacionamentos de coparentalidade entre os dois grupos de progenitores. Dez conclusões surgiram da minha pesquisa, muits das quais refutam crenças comuns que podem levar a decisões sobre a residência da criança, que muitas vezes não vão ao encontro do seu melhor interesse.

  1. Nos 54 estudos – que não incluem as situações em que as crianças necessitam de proteção em relação a um progenitor abusivo ou negligente, mesmo antes da separação – as crianças que vivem em residência alternada apresentam melhores resultados do que as crianças que vivem em residência única. As medidas de avaliação do bem-estar incluíam: resultados académicos, saúde emocional (ansiedade, depressão, autoestima, satisfação com a vida), problemas de comportamento (delinquência, mau comportamento na escola, bullying, drogas, álcool, tabaco), saúde física e doenças relacionadas com o stress, e relacionamentos com os progenitores, madrastas, padrastos e avós.
  1. Bebés e crianças de tenra idade em famílias com residência alternada não apresentam piores resultados que famílias em residência única. A partilha de pernoitas não enfraquece a vinculação das crianças mais pequenas a nenhum dos dois progenitores.
  1. Quando o nível de conflito parental foi tido em conta, as crianças em residência alternada tinham, mesmo assim, melhores resultados numa série de medidas de bem-estar. O conflito elevado não elimina os benefícios ligados à residência alternada, pelo que os benefícios desta não podem ser atribuídos ao baixo nível de conflito.
  1. Mesmo quando o rendimento familiar foi tido em conta, as crianças apresentavam melhores resultados. Além disso, progenitores com crianças em residência alternada não eram significativamente mais ricos que os com crianças em residência única.
  1. Progenitores com crianças em residência alternada não apresentam melhores relações parentais ou menor conflito que aqueles com residência única. Os benefícios da residência alternada não podem ser atribuídos à existência de coparentalidade ou baixo conflito parental.
  1. A maior parte dos progenitores com crianças em residência alternada não concordaram mútua e voluntariamente com este modelo na sua fase inicial. Na maioria dos casos, um dos progenitores opôs-se inicialmente ao plano e envolveu-se no modelo em resultado de negociações legais, mediação ou sentença do tribunal. Mesmo assim, nestes estudos as crianças em residência alternada apresentavam melhores resultados que as crianças em residência única.
  1. Quando as crianças são expostas ao conflito parental forte e continuado, incluindo conflito físico, elas não apresentam piores resultados em residência alternada do que em famílias com residência única. Estarem envolvidas num conflito elevado e continuado não é mais prejudicial para as crianças em residência alternada do que para as com residência única.
  1. Manter relacionamentos fortes com ambos os progenitores por viver em famílias com residência alternada parece compensar os efeitos negativos do conflito parental elevado e a cooperação parental diminuta . Embora a residência alternada não elimine o impacto negativo das crianças serem apanhadas no meio de conflitos fortes e continuados entre os progenitores divorciados, parece reduzir os níveis de stress, ansiedade e depressão da criança..
  1. Em residência alternada existe maior probabilidade dos progenitores terem um relacionamento desligado, distante e paralelo do que relações de coparantalidade em que trabalham em conjunto, comunicam frequentemente, interagem regularmente, coordenam as regras e rotinas em cada casa ou tentam ter o mesmo estilo parental.
  1. Nenhum estudo demonstrou que crianças cujos progenitores estão em forte conflito legal ou que levaram a sua disputa ao tribunal têm piores resultados que as crianças cujos progenitores têm menos conflito legal ou não recorrem ao tribunal para resolver a sua disputa.

 

Estes resultados refutam uma série de mitos populares sobre a residência alternada. Um entre muitos exemplos consiste num estudo de 2013 da Universidade de Virgínia, que foi referido em dezenas de meios de comunicação social por todo o mundo sobre a assustadora manchete: “Passar as noites longe da mãe enfraquece os vínculos”. No comunicado à imprensa oficial, os investigadores afirmam que o estudo deve orientar os magistrados na tomada de decisão quanto às crianças com idade inferior a 4 anos. Na verdade, este estudo não é aplicável à população em geral. Os participantes no estudo eram pobres, com baixa escolaridade, não caucasianos, que nunca tinha casado ou vivido junto. Tinham taxas elevadas de encarceramento, abuso de drogas e violência e tinham crianças de vários parceiros. Mais importante do que isto, este estudo não encontrou   nenhuma relação clara entre as pernoitas na casa do pai e a vinculação das crianças com a sua mãe.

A minha análise dos 54 estudos sobre a parentalidade partilhada demonstra que, independentemente do conflito parental e do rendimento familiar, crianças em residência alternada – com a exceção das situações em que as crianças necessitam de proteção em relação a um progenitor abusivo ou negligente – apresentavam melhores resultados numa série de medidas de bem-estar do que crianças em residência única. Conhecimento e compreensão destas conclusões ajuda-nos a desmontar os mitos que existem à volta da residência alternada, de forma a melhor servir os interesses de milhões de crianças cujos progenitores já não vivem juntos.

 

Drª. Linda Nielsen é Professora de Psicologia Educacional e do Adolescente na Wake Forest University. Ela escreveu uma série de artigos sobre a investigação da residência alternada e é frequentemente convidada a partilhar a sua investigação com comissões legislativas e profissionais dos tribunais de famíliar. Para acesso aos seus artigos contatar nielsen@wfu.edu.

 

Este texto foi traduzido com a autorização da autora e está publicado em: https://ifstudies.org/blog/10-surprising-findings-on-shared-parenting-after-divorce-or-separation

Coordenação: Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e Direitos dos Filhos

Tradução e adaptação: Ricardo Simões

Junho de 2017

 

Acesso em versão PDF (clique para fazer o download)

 

Licença Creative Commons
O trabalho 10 descobertas surpreendentes sobre parentalidade partilhada após o divórcio ou separação de Linda Nielsen está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em https://ifstudies.org/blog/10-surprising-findings-on-shared-parenting-after-divorce-or-separation .

A ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA PELA IGUALDADE PARENTAL E DIREITOS DOS FILHOS tem por fim as actividades de carácter cívico, cultural, formativo e informativo, no âmbito da protecção e fomento da igualdade parental, nos seus diferentes níveis de intervenção – legislativo, jurídico, psicológico, mobilização da opinião pública, entre outros -, relativamente aos direitos dos filhos (crianças e adolescentes) cujos pais se encontrem separados ou divorciados.