Especial APIPDF · Artigo 2 de 2

Vinculação, desenvolvimento infantil e capacidade para cuidar: o que nos diz a investigação

Pai e bebé em interação próxima, com contacto visual e atenção recíproca
A vinculação constrói-se através de interações repetidas, disponibilidade e resposta sensível aos sinais do bebé. Imagem: Vecteezy

Durante muito tempo, acreditou-se que cuidar de um bebé era, quase por natureza, uma tarefa das mulheres. A investigação das últimas décadas contou outra história. A capacidade de cuidar não pertence exclusivamente às mães, as crianças podem estabelecer relações seguras com mais do que um cuidador e o envolvimento paterno depende, sobretudo, das oportunidades concretas de cuidar desde o início.

Sumário executivo

A investigação contemporânea não sustenta a ideia de que a capacidade de cuidar pertence exclusivamente às mulheres, nem a de que o pai ocupa naturalmente uma posição parental secundária.

A gravidez, o parto, a recuperação pós-parto e a amamentação são realidades biologicamente femininas que devem ser protegidas. Estas diferenças não esgotam, contudo, os cuidados de que um bebé precisa, nem justificam uma divisão duradoura entre uma mãe cuidadora principal e um pai auxiliar.

As crianças podem construir relações de vinculação significativas com mais do que um cuidador. A qualidade dessas relações depende da sensibilidade, da continuidade, da disponibilidade e da responsabilidade assumida por cada adulto.

Os homens possuem capacidade biológica e emocional para cuidar. Essa capacidade não se desenvolve apenas por predisposição, mas através da proximidade, da experiência e da responsabilidade quotidiana. Para aprender a cuidar, é necessário cuidar.

As políticas de licenças parentais são relevantes porque distribuem tempo e oportunidades de aprendizagem. Quando um progenitor permanece longamente com a criança e o outro regressa rapidamente ao trabalho, a desigualdade de experiência daí resultante pode ser posteriormente interpretada como uma diferença natural de competências.

Este artigo apresenta a fundamentação científica da posição institucional desenvolvida no primeiro texto da série: «Licenças parentais: cuidar desde o nascimento é uma responsabilidade de ambos».

Ao longo de muito tempo, a organização social dos cuidados assentou na ideia de que a mãe seria a cuidadora principal e o pai uma presença secundária. À mãe caberia o cuidado direto do bebé; ao pai, o sustento económico da família, acompanhado de uma função auxiliar. Essa hierarquia permanece inscrita na linguagem quotidiana: a mãe cuida; o pai ajuda. A mãe assume a responsabilidade; o pai participa. A mãe é considerada indispensável; o pai, apenas desejável.

Esta representação não resulta apenas das diferenças biológicas entre mulheres e homens. Foi também produzida por determinados modelos familiares, pela organização do trabalho remunerado, pelas expectativas sociais associadas a cada sexo e por tradições científicas que, durante muito tempo, estudaram quase exclusivamente a relação entre mãe e bebé.

A investigação desenvolvida nas últimas décadas alterou substancialmente este enquadramento. A psicologia do desenvolvimento, a teoria da vinculação, a neurobiologia, a antropologia evolutiva e a sociologia da família mostram que a capacidade de cuidar não é exclusivamente feminina, que as crianças podem estabelecer relações de vinculação seguras com mais do que um cuidador e que o envolvimento paterno depende, em larga medida, das oportunidades concretas para assumir cuidados desde o início da vida da criança (Cassidy & Shaver, 2016; Hrdy, 2009, 2024; Lamb, 2010; Swain et al., 2007).

Se, no primeiro artigo desta série, a questão central era saber como devem ser desenhadas as licenças parentais para promover a corresponsabilidade, neste segundo texto importa olhar para a investigação que sustenta essa posição. A pergunta já não é a de saber se o pai deve ajudar a mãe. É a de compreender como se desenvolvem as relações de cuidado e que condições permitem que ambos os progenitores assumam responsabilidades próprias, quotidianas e efetivas desde o nascimento.

A diferença biológica não determina toda a parentalidade

A gravidez, o parto, a recuperação após o parto e a amamentação são realidades biologicamente femininas. Uma política de licenças parentais adequada deve reconhecer essa especificidade e assegurar proteção suficiente à saúde da mãe e do bebé.

Reconhecer estas diferenças não significa, porém, concluir que a generalidade dos cuidados prestados à criança pertence exclusivamente à mãe.

A amamentação constitui uma dimensão importante da nutrição e da saúde infantil e deve ser apoiada através de informação adequada, acompanhamento clínico e condições laborais que permitam a sua continuidade. Os indicadores reunidos pela UNICEF continuam a salientar a importância da iniciação precoce da amamentação e do aleitamento materno exclusivo nos primeiros meses de vida (UNICEF, 2025).

Contudo, alimentar não esgota a parentalidade.

Um bebé precisa de ser consolado, embalado, transportado, protegido, mudado, lavado e ajudado a adormecer. Precisa que os seus sinais sejam observados e interpretados. Precisa de contacto físico, de comunicação, de previsibilidade, de segurança e de resposta ao desconforto. Nenhuma destas tarefas depende da capacidade de amamentar.

Transformar a amamentação num argumento geral a favor da exclusividade, ou quase exclusividade, materna é confundir uma função biológica específica com a totalidade da relação parental. Cria-se, assim, uma oposição artificial entre o apoio à amamentação e o envolvimento do pai.

Um pai presente e competente não concorre com a mãe. Pode assumir uma parte substancial dos restantes cuidados, reduzir a sobrecarga física e emocional materna e contribuir para um ambiente familiar mais favorável à própria amamentação. A corresponsabilidade não elimina a especificidade da maternidade; evita que essa especificidade seja convertida numa obrigação de disponibilidade permanente e quase exclusiva.

A criança pode construir relações seguras com mais do que um cuidador

A teoria da vinculação contribuiu decisivamente para compreender a importância da disponibilidade emocional, da sensibilidade e da continuidade das relações durante os primeiros anos de vida. Algumas das suas formulações iniciais foram, no entanto, divulgadas de forma simplificada, como se a criança necessitasse de uma única figura cuidadora, quase sempre identificada com a mãe.

A investigação posterior mostrou que esta leitura é demasiado redutora.

As relações de vinculação formam-se através de interações repetidas com cuidadores que reconhecem os sinais da criança e lhes respondem de forma suficientemente sensível, estável e previsível. Uma criança pode desenvolver relações de vinculação significativas com mais do que uma pessoa, embora cada relação tenha a sua própria história, características e funções (Cassidy & Shaver, 2016).

Isto não significa que todos os cuidadores sejam indiferenciados ou substituíveis. Uma criança pode procurar diferentes pessoas em diferentes circunstâncias e desenvolver formas particulares de conforto, exploração, comunicação e brincadeira com cada uma delas.

A existência de mais do que uma relação segura não fragmenta necessariamente a experiência emocional da criança. Pode ampliar a sua rede de apoio, de proteção e de confiança.

A investigação reunida por Michael Lamb mostra igualmente que o fator decisivo não é a mera presença de uma figura masculina, mas a qualidade do envolvimento. As crianças não beneficiam de um pai abstratamente presente, mas de um cuidador que conhece as suas rotinas, responde às suas necessidades, participa nas decisões e assume responsabilidade pela sua vida quotidiana (Lamb, 2010).

Importa também evitar a conclusão inversa. A investigação não permite afirmar que a presença de ambos os progenitores produz automaticamente resultados positivos, independentemente da qualidade das relações. A proximidade só é benéfica quando associada a cuidados adequados, à segurança, à sensibilidade e à ausência de violência ou negligência.

Pai a observar e a segurar um bebé, representando a aprendizagem através do cuidado direto
A capacidade de cuidar desenvolve-se através da proximidade, da experiência e da responsabilidade quotidiana. Imagem: Vecteezy

A capacidade masculina para cuidar desenvolve-se através da experiência

Os estudos neurobiológicos sobre parentalidade identificaram diversos sistemas cerebrais relacionados com a atenção aos sinais do bebé, com a motivação para cuidar, com a empatia, com a regulação emocional, com a avaliação do risco e com a tomada de decisão.

Não existe, porém, um único centro cerebral do cuidado, nem se deve apresentar a parentalidade como resultado direto e automático de determinada área do cérebro. Trata-se de redes funcionais complexas, influenciadas pela biologia, pela experiência, pelo contexto social e pela própria relação que se desenvolve entre o adulto e a criança.

A revisão realizada por Swain e colaboradores descreve circuitos cerebrais envolvidos nas respostas parentais aos sinais dos bebés e destaca a importância de estudar conjuntamente as características dos cuidadores, dos bebés e das suas interações (Swain et al., 2007). Esta literatura não demonstra que mães e pais sejam biologicamente idênticos, nem que todas as pessoas reajam da mesma forma. Mostra, antes, que a experiência de cuidar influencia os sistemas neurobiológicos envolvidos na atenção, na motivação e na resposta à criança.

Sarah Blaffer Hrdy reúne investigação sobre alterações hormonais, comportamentais e neurológicas associadas à paternidade e ao cuidado direto. Entre os fenómenos estudados encontram-se a redução média da testosterona após a transição para a paternidade, as alterações associadas ao contacto continuado com bebés e a ativação de sistemas relacionados com a vigilância, a empatia e o cuidado (Hrdy, 2024).

A conclusão relevante para as políticas públicas é prudente, mas clara: os homens possuem capacidade biológica e emocional para desenvolver competências de cuidado, e essa capacidade é favorecida pela proximidade, pela responsabilidade e pela prática.

Para aprender a cuidar, é necessário cuidar.

Quem permanece regularmente com o bebé aprende a distinguir formas de choro, a reconhecer sinais de cansaço, a antecipar ritmos, a identificar preferências e a experimentar diferentes estratégias de conforto. Esta aprendizagem não ocorre apenas através de instruções. Resulta da interação quotidiana e da responsabilidade assumida.

Quando um progenitor permanece durante vários meses como cuidador principal e o outro regressa rapidamente ao trabalho, cria-se uma diferença real de experiência. A pessoa que ficou com a criança conhece melhor as rotinas e tende a adquirir maior confiança. A outra pode permanecer dependente de instruções e ser progressivamente tratada como menos competente.

Uma desigualdade inicialmente produzida pela distribuição do tempo pode, mais tarde, ser apresentada como prova de uma predisposição natural.

Dois adultos a cuidar de um bebé, representando o cuidado cooperativo
O cuidado cooperativo envolve redes de apoio mais amplas do que a relação exclusiva entre mãe e filho. Imagem: Vecteezy

O cuidado cooperativo faz parte da história humana

A antropologia evolutiva contesta igualmente a imagem de uma mãe naturalmente isolada com o seu bebé.

As crianças humanas nascem particularmente imaturas, desenvolvem-se lentamente e permanecem dependentes durante um período prolongado. Segundo Hrdy, a evolução de uma espécie com crias tão exigentes dificilmente teria sido possível sem formas de cuidado cooperativo, envolvendo mães, pais, familiares e outros membros do grupo (Hrdy, 2009).

Em Mothers and Others, Hrdy utiliza o conceito de aloparentalidade para descrever os cuidados prestados por indivíduos que não são a mãe biológica. A autora sustenta que a sobrevivência e o desenvolvimento das crianças humanas dependeram historicamente de redes de apoio mais amplas do que a relação exclusiva entre mãe e filho (Hrdy, 2009).

Isto não significa que tenha existido uma distribuição igualitária e contínua dos cuidados entre mulheres e homens. As sociedades humanas produziram modelos familiares muito diferentes e, frequentemente, relações profundamente desiguais.

Significa, porém, que a concentração quase total do cuidado infantil numa mulher isolada não pode ser apresentada como a única organização familiar compatível com a natureza humana.

Em Father Time, Hrdy analisa especificamente a evolução da capacidade masculina para cuidar. A autora não sustenta que todos os homens desenvolvam espontaneamente comportamentos de cuidado, mas que possuem essa potencialidade e que a sua expressão depende das condições sociais, da exposição às crianças, das expectativas culturais e da experiência direta (Hrdy, 2024).

A ideia de que cuidar é natural nas mulheres e artificial nos homens é, por isso, insustentável. As diferenças biológicas existem, mas não determinam de forma absoluta a divisão social do cuidado.

As normas sociais mudaram mais depressa do que as práticas

A sociologia da família permite compreender por que razão a valorização crescente da paternidade envolvida ainda não se traduz numa divisão equilibrada do trabalho parental.

Patrick Ishizuka analisou as avaliações de mais de 3600 progenitores, utilizando uma experiência com vinhetas aplicada a uma amostra nacional dos Estados Unidos. Aos participantes eram apresentados diferentes comportamentos parentais, variando o sexo do progenitor e da criança. Os resultados revelaram um apoio generalizado a formas intensivas e centradas na criança, tanto quando eram praticadas por mães como quando eram praticadas por pais (Ishizuka, 2019).

Este resultado não significa que as práticas de mães e pais sejam idênticas. Pelo contrário, o próprio autor reconhece que as mulheres continuam a assumir uma proporção superior dos cuidados básicos, da gestão da vida da criança e do tempo passado a cuidar sem a presença do outro progenitor (Ishizuka, 2019).

O estudo demonstra que as diferenças observadas nas práticas não correspondem necessariamente a diferenças equivalentes nas conceções sobre o que é uma boa parentalidade. O ideal de um pai próximo, informado e envolvido tornou-se amplamente aceite, embora muitas famílias não disponham de condições para o concretizar.

Hastings e Pesando chegaram a uma conclusão semelhante através da análise computacional de respostas abertas sobre educação dos filhos. Encontraram mais semelhanças do que diferenças nas conceções parentais dos vários grupos socioeconómicos. A maioria das respostas expressava alguma forma de parentalidade intensiva, embora com variações entre abordagens mais assertivas ou negociadas e mais pedagógicas ou pragmáticas (Hastings & Pesando, 2022).

Esta literatura aconselha prudência. Os estudos foram realizados nos Estados Unidos e não podem ser automaticamente generalizados para todas as sociedades. Revelam, contudo, uma distinção importante entre valores e possibilidades materiais.

Muitas mães e muitos pais podem valorizar a proximidade, a comunicação e a participação quotidiana, mas não possuir tempo, rendimento, proteção laboral, horários compatíveis ou autonomia profissional para concretizar essas expectativas.

As desigualdades no cuidado não resultam apenas das preferências individuais. São também produzidas pela organização do emprego, pelas diferenças salariais, pela precariedade, pelas expectativas das entidades empregadoras e pelo modo como as próprias licenças são concebidas.

Da investigação às políticas públicas

A investigação contemporânea não sustenta a representação do pai como cuidador naturalmente secundário. Também não permite afirmar que mães e pais sejam idênticos em todas as dimensões, nem que todas as famílias devam organizar-se segundo um único modelo.

Permite, contudo, chegar a algumas conclusões suficientemente sólidas.

As crianças podem construir relações de vinculação seguras com mais do que um cuidador. A qualidade da relação depende da sensibilidade, da continuidade e da responsabilidade, e não apenas do sexo do adulto.

Os homens possuem capacidade biológica e emocional para responder às necessidades dos bebés. Essa capacidade desenvolve-se através da proximidade, da experiência e da prestação regular de cuidados.

O cuidado cooperativo faz parte da história evolutiva humana. A concentração quase exclusiva dos cuidados numa única pessoa não constitui uma exigência universal da natureza.

As normas sociais valorizam cada vez mais o envolvimento de ambos os progenitores, mas as condições laborais e as políticas públicas continuam a produzir desigualdades.

A existência de períodos individuais, suficientemente remunerados, protegidos e não transferíveis, combinados com uma componente partilhável, constitui, por isso, um instrumento relevante para transformar uma participação ocasional numa responsabilidade efetiva. O reforço progressivo da parcela individual pode acompanhar a mudança das práticas familiares e laborais e contribuir para normalizar o cuidado autónomo por ambos os progenitores.

O pai que cuida desde o nascimento não substitui a mãe. Constrói uma relação própria com a criança.

A mãe que partilha os cuidados não abdica da maternidade. Deixa de suportar sozinha uma responsabilidade que pertence a ambos.

A criança não perde segurança por desenvolver uma relação próxima com mais do que um cuidador adequado. Ganha uma rede mais ampla de proteção, de conhecimento, de disponibilidade e de afeto.

A ciência não determina, por si só, qual deve ser o modelo jurídico das licenças parentais. Essa é uma decisão política e social. O que a investigação mostra, com suficiente consistência, é que o envolvimento precoce e adequado de ambos os progenitores favorece o desenvolvimento das competências parentais e pode ampliar a rede de cuidado, disponibilidade e segurança da criança. Ignorar este conhecimento significa desenhar políticas públicas afastadas do conhecimento científico atualmente disponível.

As consequências institucionais desta evidência são desenvolvidas no primeiro artigo desta série: «Licenças parentais: cuidar desde o nascimento é uma responsabilidade de ambos».

Referências bibliográficas

  1. Cassidy, J., & Shaver, P. R. (Eds.). (2016). Handbook of attachment: Theory, research, and clinical applications (3rd ed.). Guilford Press.
  2. Hastings, O. P., & Pesando, L. M. (2022). What’s a parent to do? Measuring cultural logics of parenting with text analysis [Working paper].
  3. Hrdy, S. B. (2009). Mothers and others: The evolutionary origins of mutual understanding. Belknap Press of Harvard University Press.
  4. Hrdy, S. B. (2024). Father time: A natural history of men and babies. Princeton University Press.
  5. Ishizuka, P. (2019). Social class, gender, and contemporary parenting standards in the United States: Evidence from a national survey experiment. Social Forces, 98(1), 31–58. https://doi.org/10.1093/sf/soy107
  6. Lamb, M. E. (Ed.). (2010). The role of the father in child development (5th ed.). Wiley.
  7. Swain, J. E., Lorberbaum, J. P., Kose, S., & Strathearn, L. (2007). Brain basis of early parent–infant interactions: Psychology, physiology, and in vivo functional neuroimaging studies. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 48(3–4), 262–287. https://doi.org/10.1111/j.1469-7610.2007.01731.x
  8. United Nations Children’s Fund. (2025). The State of the World’s Children 2025: Ending child poverty: Our shared imperative: Statistical compendium. UNICEF.