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Coparentalidade

Como pais e mães coordenam os cuidados, decisões, responsabilidades e relações parentais antes e depois da separação, e de que forma cooperação, conflito e organização familiar podem influenciar o bem-estar das crianças.

Psicologia da Família Sociologia da Família Responsabilidades parentais Conflito interparental

O que significa coparentalidade?

A coparentalidade refere-se à forma como duas ou mais figuras parentais se relacionam e coordenam entre si enquanto responsáveis pela educação, proteção e cuidado de uma criança.

É, portanto, diferente da relação conjugal. Um casal pode terminar a sua relação afetiva e continuar a ter uma relação coparental, porque as responsabilidades relativas aos filhos e filhas permanecem.

A qualidade dessa relação pode variar ao longo do tempo. Pode existir cooperação elevada, coordenação mais funcional e limitada ou, pelo contrário, conflito, desautorização e dificuldades persistentes de comunicação.

Coparentalidade não significa que os progenitores tenham de concordar sobre tudo. O elemento central é a capacidade de exercer as funções parentais sem colocar a criança no centro dos conflitos entre adultos e de coordenar aquilo que necessita efetivamente de coordenação.

Quatro dimensões centrais da coparentalidade

Um dos modelos mais utilizados na investigação, desenvolvido por Mark Feinberg, organiza a coparentalidade em quatro grandes dimensões relacionadas entre si.

1

Apoio ou desautorização

Em que medida cada progenitor reconhece, apoia ou, pelo contrário, desvaloriza a competência e a autoridade parental do outro.

2

Acordos e desacordos parentais

Diferenças relativas a educação, regras, valores, disciplina, saúde, escola e outras matérias associadas ao desenvolvimento da criança.

3

Distribuição dos cuidados

Forma como tarefas, responsabilidades, disponibilidade, carga mental e cuidados quotidianos são repartidos entre as figuras parentais.

4

Gestão das interações familiares

Inclui a forma como os adultos gerem a comunicação, protegem a criança do conflito e organizam as interações entre os diferentes elementos da família.

Conceitos relacionados, mas diferentes

Na prática profissional é importante não utilizar coparentalidade, responsabilidades parentais, corresponsabilidade e residência alternada como se fossem sinónimos.

Conceito Significado principal
Coparentalidade Qualidade e organização da relação entre as pessoas que desempenham funções parentais relativamente à criança.
Responsabilidades parentais Conceito jurídico relativo aos deveres e poderes funcionais dos progenitores quanto à proteção, educação, representação e desenvolvimento dos filhos e filhas.
Corresponsabilidade parental Participação efetiva de ambos os progenitores nas decisões, cuidados, responsabilidades e encargos relativos à criança.
Residência alternada Forma de organização da residência da criança entre os agregados familiares de ambos os progenitores.
Relação conjugal Relação afetiva entre os adultos. Pode terminar sem que termine a relação coparental.
Consequência importante: é possível existir residência alternada com uma coparentalidade pouco cooperativa e também existir residência predominante com uma relação coparental funcional. A qualidade da coparentalidade e a distribuição do tempo de residência são dimensões diferentes.

O problema não é a existência de qualquer desacordo

O conflito faz parte das relações humanas. O que merece particular atenção profissional é o conflito frequente, intenso, hostil, mal resolvido ou aquele em que a criança é envolvida diretamente.

A investigação sobre famílias separadas tem associado o conflito interparental a dimensões da parentalidade e do ajustamento psicossocial das crianças. Esses efeitos não são, porém, uniformes nem determinados apenas pelo facto de existir desacordo.

A forma como os adultos gerem os conflitos, preservam as relações parento-filiais e mantêm a criança fora das disputas é, por isso, uma dimensão importante da avaliação familiar.

Gestão construtiva do desacordo

  • negociação e resolução de problemas;
  • comunicação respeitosa;
  • capacidade de compromisso;
  • separação entre conflito conjugal e funções parentais;
  • não utilização da criança como intermediária;
  • capacidade de reparar conflitos.

Conflito potencialmente prejudicial

  • hostilidade frequente e intensa;
  • insultos ou desqualificação persistente;
  • pressão sobre a criança para tomar partido;
  • utilização da criança para transmitir mensagens;
  • conflitos repetidos nas transições entre casas;
  • sabotagem persistente das funções parentais do outro.

Conflito elevado não é sinónimo de violência doméstica

A utilização indiscriminada da expressão “alto conflito” pode ocultar realidades distintas. Desacordo intenso, comunicação disfuncional, violência doméstica, controlo coercivo, maus-tratos e abuso não são categorias equivalentes.

Quando existem indicadores de violência, abuso, negligência ou risco para a criança ou para um progenitor, a prioridade é a avaliação da segurança. Nesses casos, exigir cooperação direta entre os adultos pode não ser adequado.

Da mesma forma, a existência de alegações não permite determinar antecipadamente a sua veracidade ou falsidade. A intervenção deve avaliar os factos e as hipóteses relevantes no caso concreto.

A coparentalidade não tem um único modelo

O grau de contacto e coordenação adequado pode variar em função da família, da idade da criança, das decisões que precisam de ser tomadas, do nível de conflito e de eventuais questões de segurança.

Maior cooperação

Coparentalidade cooperativa

Comunicação relativamente frequente, tomada conjunta de decisões relevantes, flexibilidade e capacidade de resolver divergências sem envolver a criança.

Estrutura reforçada

Coparentalidade estruturada

Regras claras, plano parental detalhado, canais específicos de comunicação e menor necessidade de negociação quotidiana. Pode ser útil quando a cooperação é limitada.

Contacto reduzido

Parentalidade paralela

Organização que procura reduzir o contacto direto entre progenitores muito conflituosos, delimitando responsabilidades, transições e comunicação. Não substitui medidas de proteção quando existem problemas de segurança.

O que deve ser avaliado pelos profissionais?

A avaliação da coparentalidade deve ultrapassar rótulos genéricos como “boa relação”, “má relação” ou “alto conflito”. É necessário identificar comportamentos, contextos e efeitos concretos.

Qual é o objeto do conflito? Nem todos os desacordos têm a mesma relevância. Importa perceber frequência, intensidade, duração e matérias em disputa.
A criança é envolvida? Deve ser avaliada a utilização da criança como mensageira, confidente, árbitra, fonte de informação ou participante no conflito dos adultos.
Existe apoio ou desautorização parental? Importa observar se os progenitores reconhecem a relação da criança com o outro ou procuram sistematicamente desacreditar a sua função parental.
Como circula a informação? Saúde, escola, atividades, horários e acontecimentos relevantes exigem mecanismos funcionais de partilha de informação.
Como são tomadas as decisões? Deve distinguir-se aquilo que exige decisão conjunta, aquilo que pertence à vida corrente e aquilo que cada casa pode organizar autonomamente.
Há questões de segurança? Violência, abuso, negligência ou controlo coercivo exigem avaliação própria e não devem ser tratados simplesmente como “dificuldades de coparentalidade”.
Como ocorrem as transições? Entregas, recolhas e mudanças de casa podem ser momentos especialmente sensíveis em famílias com conflito persistente.
O plano é exequível? Horários, distância geográfica, trabalho, escola e necessidades da criança devem ser considerados na organização concreta dos cuidados.

O que mostra a investigação?

A investigação sobre coparentalidade desenvolveu-se fortemente nas últimas décadas. Os resultados devem ser interpretados considerando desenhos de estudo, amostras, medidas utilizadas e diferenças entre famílias.

2003

Feinberg: modelo multidimensional

Propôs um dos quadros conceptuais mais influentes, distinguindo apoio coparental, desacordo, divisão do trabalho e gestão das interações familiares.

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2020

Conflito parental e ajustamento após o divórcio

Meta-análise de 115 amostras e 24.854 famílias encontrou associações entre conflito interparental, diferentes dimensões da parentalidade e problemas internalizantes e externalizantes das crianças.

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2022

Duas décadas de investigação sobre coparentalidade

Uma revisão de âmbito mostrou a natureza sistémica da coparentalidade e as relações entre funcionamento coparental, envolvimento parental, bem-estar dos adultos e desenvolvimento das crianças.

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2026

Intervenções sobre conflito interparental

Uma revisão sistemática recente encontrou resultados promissores em diferentes intervenções, mas salientou que a evidência ainda é insuficiente para conclusões definitivas e que persistem importantes lacunas de investigação.

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2026

O conflito também pode ser gerido construtivamente

Uma síntese de 23 estudos publicados entre 2015 e 2025 encontrou associações entre formas construtivas de gestão do conflito e melhores indicadores de ajustamento, embora os resultados dependam de múltiplos fatores.

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Leituras de autor disponíveis nesta área

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Última atualização: agosto de 2026