A autora comparou estudos sobre resultados emocionais, comportamentais, académicos, físicos e relacionais.
Texto de divulgação de Linda Nielsen baseado na sua revisão da investigação sobre residência física partilhada, conflito parental, rendimento familiar e bem-estar das crianças.
Professora de Psicologia Educacional e do Adolescente, Wake Forest University
O texto 10 Surprising Findings on Shared Parenting After Divorce or Separation foi publicado no Institute for Family Studies em 20 de junho de 2017.
Nielsen apresenta de forma acessível conclusões retiradas das suas revisões da literatura sobre crianças em residência física partilhada e em residência exclusiva ou predominantemente com um dos progenitores.
Na terminologia utilizada pela autora, residência física partilhada correspondia geralmente a situações em que a criança vivia com cada progenitor pelo menos aproximadamente 35% do tempo.
Este é um texto de divulgação científica publicado em 2017 e não deve ser confundido com uma revisão sistemática produzida em 2026 nem com uma regra automática para decidir a residência de uma criança concreta.
A APIPDF preserva as conclusões da autora e acrescenta um enquadramento editorial atualizado, distinguindo aquilo que Nielsen afirmou em 2017 da evolução posterior da investigação.
O ponto de partida de Nielsen era testar várias ideias comuns sobre a residência partilhada após a separação.
A autora comparou estudos sobre resultados emocionais, comportamentais, académicos, físicos e relacionais.
Nielsen procurou verificar se as diferenças observadas desapareciam quando o rendimento familiar era considerado.
Outra questão central era saber se os resultados favoráveis resultavam simplesmente de estas famílias terem, à partida, relações parentais mais cooperantes.
A autora analisou também estudos em que a residência partilhada não tinha resultado inicialmente de acordo espontâneo entre ambos.
A síntese seguinte preserva o sentido das conclusões apresentadas pela autora no texto original. O enquadramento metodológico atual aparece mais abaixo.
Nos 54 estudos então revistos, excluindo situações em que a criança necessitava de proteção relativamente a um progenitor abusivo ou negligente, Nielsen encontrou resultados globalmente mais favoráveis para crianças em residência física partilhada em diversas medidas de bem-estar.
A autora concluiu que bebés e crianças de tenra idade em residência partilhada não apresentavam, em média, resultados piores do que os grupos comparativos em residência exclusiva.
Nos estudos que controlavam estatisticamente o nível de conflito parental, Nielsen observou que as diferenças favoráveis à residência partilhada não desapareciam necessariamente.
A autora argumentou que as diferenças observadas também não podiam ser explicadas exclusivamente por maiores rendimentos das famílias em residência partilhada.
Segundo a revisão da autora, pais em residência partilhada não apresentavam necessariamente relações coparentais melhores ou níveis significativamente inferiores de conflito.
Nielsen assinalou que, em vários estudos, a residência partilhada resultara de negociação, mediação ou decisão judicial, e não necessariamente de consenso voluntário desde o início.
No conjunto de estudos revistos, a autora não encontrou evidência de que crianças expostas a conflito parental elevado apresentassem resultados sistematicamente piores em residência partilhada do que em residência exclusiva.
Nielsen colocou a hipótese de a manutenção de relações fortes com ambos os progenitores poder funcionar como fator protetor perante alguns efeitos negativos do conflito.
A residência partilhada não implicava necessariamente uma coparentalidade muito próxima. Algumas famílias funcionavam através de relações parentais mais distantes ou paralelas.
Nielsen afirmou não ter encontrado, nos estudos analisados, demonstração de que o simples facto de os progenitores terem recorrido ao tribunal implicasse, por si só, piores resultados para as crianças.
O conteúdo publicado pela APIPDF resulta da tradução, com autorização da autora, do artigo de divulgação publicado no Institute for Family Studies em junho de 2017.
O texto original utiliza deliberadamente uma linguagem sintética e afirmativa para apresentar ao público os principais resultados identificados por Nielsen. Essa linguagem é preservada enquanto posição da autora, mas deve ser lida juntamente com o enquadramento metodológico e a investigação posterior apresentados nesta página.
A investigação sobre residência física partilhada continuou a desenvolver-se. Duas referências são especialmente úteis para enquadrar atualmente as “10 descobertas”.
Nielsen publicou posteriormente uma revisão de 60 estudos em Journal of Child Custody.
Em 34 estudos, as crianças em residência física partilhada apresentavam melhores resultados em todas as medidas; em 14, resultados iguais em algumas e melhores noutras; em seis, resultados equivalentes; e nos restantes seis havia pelo menos uma medida pior, acompanhada de resultados iguais ou melhores nas demais medidas.
A autora encontrou também um padrão geralmente favorável quando eram considerados rendimento familiar e conflito parental.
Consultar o artigo →Uma revisão sistemática independente publicada em PLOS ONE analisou 39 estudos sobre diferentes formas de residência após a separação.
Os autores encontraram que as crianças em residência física partilhada apresentavam frequentemente resultados iguais ou melhores do que crianças em residência exclusiva, enquanto estas últimas tendiam a apresentar os resultados menos favoráveis.
A revisão procurou, contudo, compreender mecanismos e possíveis fatores de seleção, em vez de interpretar automaticamente as associações como prova causal.
Consultar a revisão sistemática →Uma grande parte da investigação sobre residência pós-separação é observacional. Isso significa que os investigadores comparam famílias que já vivem segundo diferentes modelos, em vez de atribuir aleatoriamente crianças a uma determinada organização residencial.
Consequentemente, devem ser considerados vários fatores:
Esta distinção é particularmente importante ao interpretar algumas das conclusões apresentadas por Nielsen.
Estudos sobre conflito parental não devem ser utilizados para concluir que residência física partilhada deve ser aplicada automaticamente quando existe violência doméstica, abuso, negligência ou risco para a criança.
O próprio texto de Nielsen excluía da sua conclusão geral as situações em que a criança necessitava de proteção relativamente a um progenitor abusivo ou negligente.
Segurança e proteção da criança constituem sempre uma questão distinta da mera existência de conflito ou desacordo parental.
Nielsen procurava contrariar a ideia de que a residência física partilhada só poderia funcionar entre progenitores ricos, altamente cooperantes e sem conflito.
A autora usou os estudos disponíveis para sustentar que essas condições não explicavam, por si só, os resultados observados.
A investigação acumulada não sustenta a ideia de que a residência física partilhada seja, por natureza, prejudicial às crianças.
Também não permite transformar resultados médios de grupos populacionais numa prescrição automática para todas as famílias.
As decisões individuais devem integrar segurança, relações familiares, necessidades da criança, organização prática e demais circunstâncias relevantes.
Autora: Linda Nielsen
Coordenação: Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e Direitos dos Filhos
Tradução e adaptação: Ricardo Simões
Data: junho de 2017
Licença indicada na edição portuguesa: Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-NC-SA 4.0).
O texto de Linda Nielsen continua relevante porque confronta pressupostos frequentes segundo os quais a residência partilhada só pode produzir bons resultados quando existe elevado rendimento, ausência de conflito e consenso perfeito entre progenitores.
A investigação posterior continuou a encontrar, em média, resultados favoráveis ou equivalentes associados à residência física partilhada.
A leitura científica adequada exige, contudo, distinguir associação de causalidade, reconhecer possíveis efeitos de seleção e evitar utilizar médias populacionais como solução automática para uma criança concreta.
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