Filhos


Para crianças e jovens

A tua família mudou. Continua a ser a tua família.

Se o teu pai, a tua mãe, os teus dois pais ou as tuas duas mães se separaram, podes ter muitas perguntas. Aqui encontras informação sobre aquilo que estás a sentir, os teus direitos, viver em duas casas, os conflitos dos adultos, ser ouvido/a e pedir ajuda quando precisares.

Criança sentada à mesa com duas pessoas adultas

Quando os adultos se separam, há muitas coisas que podem mudar. Mas há coisas que não deviam desaparecer: os cuidados, a segurança, o afeto, as relações familiares e o direito de continuares a ter pessoas importantes presentes na tua vida.

Algumas crianças passam a viver em duas casas. Outras vivem mais tempo numa casa e passam outros períodos com o pai ou a mãe que vive noutro lugar. Algumas estão temporariamente afastadas de uma pessoa de quem gostam. Há também situações em que, por razões de segurança, é necessário limitar ou acompanhar alguns contactos.

O importante é que sejas cuidado/a, protegido/a e ouvido/a e que os adultos procurem organizar a tua vida de forma a preservar as relações familiares que são seguras e importantes para ti.

Os teus direitos

Ser criança ou jovem não significa que as decisões sobre a tua vida possam ser tomadas como se não tivesses sentimentos, opinião ou direitos.

Direito a ser cuidado/a

Pais e mães têm responsabilidades na tua educação, proteção, saúde, alimentação, segurança e desenvolvimento. A separação não faz desaparecer essas responsabilidades.

Direito às relações familiares

Deves poder manter relações regulares e significativas com pais e mães e com outras pessoas importantes da tua família, desde que essas relações sejam seguras para ti.

Direito a ser ouvido/a

Tens direito a dizer o que pensas e sentes sobre assuntos que te dizem respeito. A tua opinião deve ser considerada de acordo com a tua idade e capacidade de compreensão.

Direito a não escolher lados

Não deves ser pressionado/a a tomar partido por um adulto contra outro nem a sentir que gostar de um pai ou de uma mãe significa gostar menos do outro.

Direito à privacidade

Tens direito a ter espaço próprio, conversas privadas, objetos pessoais e relações que não sejam utilizadas para vigiar aquilo que acontece na outra casa.

Direito à proteção

Nenhuma relação familiar justifica violência, abuso, humilhação, negligência ou comportamentos que coloquem a tua segurança em risco.

Quando os teus pais ou mães se separam

Cada família é diferente, mas há algumas coisas que todas as crianças e jovens precisam de saber.

Não tens culpa

Mesmo que tenhas discutido com alguém, tido más notas ou feito alguma coisa de que os adultos não gostaram, isso não é a causa da separação.

Podes ter sentimentos contraditórios

Podes estar triste e aliviado/a ao mesmo tempo, zangado/a, assustado/a, confuso/a ou até contente por algumas discussões terem acabado.

Podes fazer perguntas

Tens direito a receber explicações adequadas à tua idade sobre aquilo que vai mudar na tua vida, sem seres carregado/a com problemas que pertencem aos adultos.

Continuas a pertencer à tua família

Uma relação entre adultos pode acabar. A tua relação com pais, mães, irmãos, irmãs, avós e outras pessoas importantes não desaparece por causa disso.

Viver em duas casas

Ter duas casas não significa ter duas vidas nem ter de escolher qual delas é a tua casa “verdadeira”.

Pessoa adulta a caminhar de mãos dadas com duas crianças

Duas casas podem continuar a fazer parte da mesma família

A residência alternada permite que muitas crianças continuem a viver o dia a dia com pais e mães depois da separação: acordar, jantar, estudar, descansar, ir à escola, conversar, estar doente, brincar e fazer as coisas normais de uma família.

Não é necessário que tudo seja igual nas duas casas. Horários, comidas, quartos ou algumas regras podem ser diferentes. Mas previsibilidade, respeito e informação clara tornam as mudanças de casa mais fáceis.

Coisas importantes nas duas casas

Podes pedir para ter roupa, produtos de higiene, carregadores, material escolar e outras coisas básicas disponíveis sem teres de transportar tudo de um lado para o outro.

Um calendário que percebas

É útil saber antecipadamente onde vais estar, quem te vai buscar e quando mudas de casa.

Contacto com a outra casa

Estar com um pai ou uma mãe não devia significar desaparecer da vida do outro. Telefonar ou enviar uma mensagem pode fazer parte da normalidade.

Escola e atividades

A organização das casas deve permitir que continues a estudar, ver amigos, praticar desporto e participar nas atividades que são importantes para ti.

Objetos pessoais

Um brinquedo, livro, fotografia ou objeto de que gostas pode acompanhar-te. As tuas coisas não devem servir para criar fronteiras entre as casas.

Diz o que não está a funcionar

Se um horário te deixa exausto/a, se esqueces sempre coisas ou se alguma rotina está a dificultar a escola, podes explicar isso aos adultos.

Perguntas que tens o direito de fazer

Onde vou estar?

Podes perguntar em que dias estás em cada casa, onde passas aniversários, férias e outras datas importantes.

Quem me leva à escola?

Saber quem te leva e busca, como funcionam os teus horários e o que acontece quando há uma alteração ajuda a diminuir a incerteza.

Posso continuar a ver os meus amigos?

A separação dos adultos não devia obrigar-te a abandonar as amizades e atividades que fazem parte da tua vida.

Posso falar com o pai ou com a mãe?

Podes querer falar com um deles quando estás na outra casa. Esse contacto deve fazer parte de uma relação familiar normal e segura.

E se eu quiser mudar alguma coisa?

Os teus horários e necessidades mudam quando cresces. Podes explicar aos adultos o que está a funcionar e aquilo que gostarias que fosse diferente.

Quem decide?

Algumas decisões são tomadas pelos teus pais e mães e, quando não conseguem chegar a acordo, podem ser tomadas por um tribunal. A tua opinião continua a ser importante.

Quando os adultos estão em conflito

Uma discussão entre adultos não devia transformar-se numa discussão dentro de ti.

Depois de uma separação, os adultos podem estar magoados, zangados ou discordar sobre dinheiro, casas, horários, novas relações ou outras questões. Essas emoções são deles.

Pode acontecer alguém falar mal do teu pai ou da tua mãe, fazer perguntas constantes sobre aquilo que aconteceu na outra casa, pedir-te que guardes segredos ou fazer-te sentir que tens de provar de que lado estás.

Podes dizer que isso te incomoda. Podes também falar com outra pessoa adulta em quem confies.

Quando quase não vês um pai ou uma mãe

Estar afastado/a de uma pessoa importante pode trazer saudades, tristeza, raiva, dúvidas ou até uma sensação de habituação à ausência.

Não precisas de deixar de gostar

A distância não apaga necessariamente uma relação. Podes continuar a gostar, sentir saudades, recordar momentos ou querer perceber o que aconteceu.

Podes pedir explicações

Se não compreendes por que razão não vês alguém, podes pedir aos adultos uma explicação verdadeira e adequada à tua idade. Não precisas de conhecer detalhes de processos ou acusações que não consegues avaliar.

Podes querer restabelecer contacto

Quando uma relação é segura, podes dizer que gostarias de telefonar, conversar, encontrar-te ou recuperar gradualmente uma relação que ficou interrompida.

Também podes ter dúvidas ou receios

Se tens medo ou não queres um contacto, os adultos devem procurar perceber porquê. A tua opinião merece ser ouvida e as razões precisam de ser avaliadas com cuidado.

A tua opinião importa

Ser ouvido/a não significa que tenhas de decidir sozinho/a.

Podes dizer o que pensas, sentes e precisas

Podes explicar onde te sentes bem, aquilo de que tens medo, como vives as mudanças de casa, como são as tuas relações, que horários funcionam melhor, o que te preocupa e o que gostarias que os adultos compreendessem.

A tua opinião não é uma votação entre o teu pai e a tua mãe. Não tens de escolher “quem ganha”. Ouvir-te serve para que os adultos compreendam melhor a tua vida antes de tomarem decisões.

Também tens direito a mudar de opinião. Crescer, começar uma nova escola, ter novos horários ou simplesmente perceber melhor aquilo que sentes pode alterar aquilo de que precisas.

Jovem a conversar com uma pessoa adulta

Se fores ouvido/a por um tribunal

Uma audição não deve ser um teste nem um interrogatório para escolher entre pessoas de quem gostas.

1

Podes perguntar o que vai acontecer

Antes da conversa, deves receber informação adequada sobre quem vai falar contigo, porquê e o que poderá acontecer com aquilo que disseres.

2

Podes falar pelas tuas próprias palavras

Não precisas de usar palavras jurídicas nem repetir aquilo que alguém te mandou dizer. O importante é explicares a tua experiência.

3

Podes dizer que não sabes

Não tens de inventar uma resposta. Também podes dizer que não compreendeste uma pergunta ou pedir que seja explicada de outra maneira.

4

A decisão não fica às tuas costas

A tua opinião deve ser considerada, mas são as pessoas adultas responsáveis pela decisão que têm de avaliar todas as informações e assumir essa responsabilidade.

Se não te sentes seguro/a

Defender relações próximas com pais e mães não significa que devas suportar violência, abuso, negligência, ameaças, humilhação ou qualquer comportamento que coloque a tua segurança em risco.

Se alguém te bate, ameaça, toca no teu corpo de uma forma que não queres, te obriga a guardar segredos que te assustam, não cuida das tuas necessidades básicas ou te faz sentir em perigo, é importante pedir ajuda.

Pessoa adulta a abraçar uma criança
Conta a alguém

Pode ser um familiar, professor/a, psicólogo/a, médico/a, enfermeiro/a ou outra pessoa adulta em quem confies.

Não desistas à primeira

Se a primeira pessoa não compreendeu ou não ajudou, procura outra pessoa adulta ou um serviço especializado.

Procura um lugar seguro

Se houver perigo imediato, afasta-te da situação sempre que conseguires fazê-lo em segurança e procura ajuda de uma pessoa adulta ou dos serviços de emergência.

Recursos que podem ajudar

Há informação criada especificamente para crianças e jovens e existem serviços onde podes pedir ajuda quando alguma coisa te preocupa.

Direitos

Convenção sobre os Direitos da Criança

A UNICEF disponibiliza uma versão ilustrada e em linguagem simples dos direitos das crianças.

Crianças e jovens

Espaço Crianças e Jovens

A Comissão Nacional disponibiliza conteúdos sobre direitos, emoções, justiça, bullying, segurança digital e outros assuntos importantes para crianças e jovens.

Apoio

SOS Criança e Jovem

O Instituto de Apoio à Criança disponibiliza um serviço gratuito e confidencial onde crianças e jovens podem falar sobre situações que os preocupam.

Proteção

Quando uma criança está em perigo

A Comissão Nacional explica como pedir ajuda e como comunicar uma situação em que uma criança ou jovem possa estar em perigo.

Família

A família da criança é sempre uma

Um texto da psicóloga Rute Agulhas sobre separação, relações familiares, duas casas e proteção das crianças dos conflitos entre adultos.

Família alargada

Avós, irmãos e irmãs

A separação dos adultos não deve significar perder injustificadamente relações importantes com avós, irmãos e irmãs.

Há recursos que podes mostrar aos adultos da tua família

Algumas coisas não dependem de ti. Estes recursos foram criados para ajudar pais e mães a organizar a separação e os cuidados sem colocar os filhos e as filhas no centro dos seus conflitos.

Há uma coisa importante para levares desta página

Não tens de perder um pai, uma mãe ou uma parte da tua família só porque os adultos deixaram de viver juntos.

Quando as relações são seguras, os filhos e as filhas devem poder continuar a receber cuidados, tempo, afeto, educação e presença quotidiana de pais e mães. Para nós, proteger o superior interesse da criança significa também proteger essa continuidade dos cuidados e das relações familiares.

E quando alguma relação não é segura, proteger-te vem primeiro. Em qualquer das situações, tens o direito de ser tratado/a como uma pessoa com sentimentos, opinião, relações e direitos próprios.

Última atualização: agosto de 2026