A família da criança é sempre uma

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A familia da criançá é só uma

Na sociedade actual observam-se alterações importantes ao nível das dinâmicas familiares, nomeadamente, um aumento significativo do número de separações e divórcios. Tradicionalmente, a mãe surgia de imediato como aquela a quem a criança era entregue, reflectindo a ideia de que o amor de mãe é inato e insubstituível, sendo apenas em situações de clara disfunção materna que a guarda por parte do progenitor masculino era equacionada. Actualmente, assiste-se de forma crescente a um exercício da parentalidade partilhado por ambos os progenitores, que asseguram os cuidados à criança de forma igualitária.

O ajustamento da criança ao processo de separação ou divórcio dos pais depende, acima de tudo, da forma como os pais lidam com todo o processo. De uma forma geral, é aconselhável que os pais, ainda antes da separação, lhe dêem uma explicação adequada, ajudando-a a compreender que não é responsável pela situação e que ambos os pais continuarão, sempre, a gostar de si. São frequentes as situações em que os pais, simplesmente, nada dizem. Porque não sabem o que dizer ou como dizer, porque consideram que a criança é muito pequena para compreender o que realmente se passa, ou porque sentem que a criança já se apercebeu da situação, pelo que não vale a pena falar-se mais do assunto. A falta de uma explicação adequada e atempada por parte dos pais relativamente à separação ou divórcio, que permita preservar a imagem de ambos os progenitores, conduz a que a maioria das crianças experiencie sentimentos de culpa e abandono.

Após a separação a criança deve ser protegida dos conflitos entre os seus pais, sendo que a exposição aos mesmos poderá conduzir a sintomas diversos, que podem variar de acordo com a sua idade. Frequentemente, a criança experiencia ainda conflitos de lealdade – sentir que, ao gostar de um progenitor, poderá estar a trair o outro – o que pode ser extremamente difícil de gerir. Importa reter que as crianças têm a necessidade, e também o direito, em manter com ambos os progenitores uma relação de afecto positivo.

Por outro lado, a maior parte das crianças passa a ter duas casas após a separação dos pais: a casa da mãe e a casa do pai. Ter duas casas não significa que passe a ter duas famílias – a sua família é, e será sempre, apenas uma, na medida em que as relações familiares transcendem as residências. Entre pais e filhos não há divórcio, sendo desejável, na perspectiva da criança, que esta mantenha um convívio regular com ambos os pais e respectivas famílias de origem. Neste contexto, o padrão tradicional em que a criança reside com um progenitor e visita o outro em fins-de-semana alternados pode revelar-se muito prejudicial, em especial para crianças em idade pré-escolar, cuja noção de tempo as impede de compreender o facto de não conviver frequentemente com ambos os pais. Estes contactos devem também ocorrer em diversos contextos (por exemplo, uma refeição, um passeio, dormir), facilitando a consolidação dos laços afectivos.

Em conclusão, podemos afirmar que, apesar de todas as mudanças que um processo de separação ou divórcio possa trazer à vida de uma criança, estas não têm de ser necessariamente negativas, dependendo da forma como os pais lidam com a situação.

 

Dra. Rute Agulhas

Psicóloga, Terapeuta Familiar

Psicóloga Consultora na Delegação Sul do Instituto Nacional de Medicina Legal

Professora Assistente Convidada no ISCTE-IUL.

 

A ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA PELA IGUALDADE PARENTAL E DIREITOS DOS FILHOS tem por fim as actividades de carácter cívico, cultural, formativo e informativo, no âmbito da protecção e fomento da igualdade parental, nos seus diferentes níveis de intervenção – legislativo, jurídico, psicológico, mobilização da opinião pública, entre outros -, relativamente aos direitos dos filhos (crianças e adolescentes) cujos pais se encontrem separados ou divorciados.