Parentalidade partilhada: medicina preventiva para crianças

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Parentalidade partilhada: medicina preventiva para crianças.

Escrito por: Drª. Linda Nielsen

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Linda Nielsen

O colunista e psicólogo especialista na área da família, John Rosemond, escreveu recentemente que, quando se decidem casos conflituosos de regulação do exercício das responsabilidades parentais, os juízes devem evitar a partilha da parentalidade e, em vez disso, atribuir a um progenitor a residência e ao outro atribuir tempo de convívio limitado (“Custody should focus on fairness to kids” LJS, Feb. 20).

O Dr. Rosemond argumentou que os acordos de parentalidade partilhada são baseados no melhor interesse dos progenitores em vez do melhor interesse da criança.

O Dr. Rosemond está absolutamente correto quando afirma que, quando os progenitores se separam, as crianças têm “direitos”. Mais importante, as crianças têm “necessidades” que os adultos devem assegurar que são satisfeitas – especialmente se esses adultos forem profissionais de saúde mental ou juízes.

Haverá muitos progenitores magoados e zangados que colocam os seus “direitos” e necessidades à frente das suas crianças? Infelizmente, sim. Alguns progenitores satisfazem a sua “necessidade” de castigar o outro ao restringir o seu tempo de convívio, mesmo que seja às custas da saúde mental e física dos seus filhos/as. Ainda pior, estes progenitores são frequentemente ajudados por profissionais de saúde mental e juízes que não estão familiarizados com a investigação – ou que foram enganados por oradores de seminários e escritores mal informados.

Muitos de nós ficam chateados com os progenitores que sentem ter o “direito” a privar os seus filhos/as de assistência médica básica, mesmo que estes pais e mães amorosos e geralmente bem-educados acreditem sinceramente que é “no melhor interesse da criança”. Igualmente há progenitores, juízes e profissionais de saúde mental que desaconselham uma poderosa medicina preventiva – que protege as crianças de uma vida contra danos, enfraquecimento, ou perda total das relações com um dos seus progenitores. Esta medicina preventiva é parentalidade partilhada – permitindo às crianças que continuem a viver com ambos os progenitores pelo menos 35% do tempo.

Investigações na área da saúde mental mostram claramente que a parentalidade partilhada providencia os melhores resultados na maioria dos casos de crianças com progenitores que não estão a viver juntos. Existem 43 estudos revistos por pares que comparam crianças em famílias com parentalidade partilhada com as que vivem maioritariamente ou exclusivamente com um dos progenitores. Os resultados são claros e inequívocos. As crianças em parentalidade partilhada apresentam melhores resultados.

Será que os progenitores em famílias com parentalidade partilhada são especialmente comunicativos, com relações amistosas entre eles? Não. Será que no começo concordam mutuamente com a partilha de tempo da criança, sem a intervenção de mediadores, advogados ou terapeutas? Não. Será que estes 43 estudos mostram que a vida destas crianças é instável, prejudicada ou stressante porque vivem em duas casas em vez de uma? Não.

Quando os seus progenitores evidenciam um comportamento desadequado um com o outro, ficarão as crianças pior se viverem em duas casas em vez de uma? Não. No último quarto de século, em dezenas de estudos de investigação, as crianças ter-nos-ão dito que todos os planos de fins-de-semana com o outro progenitor iam de encontro às suas necessidades, fazendo-os sentir estáveis e seguros, e reduzindo as perturbações nas suas vidas? Não. De facto, disseram-nos exatamente o contrário.

No último ano, 110 especialistas internacionais nas áreas do desenvolvimento da criança, da vinculação infantil e do divórcio chegaram a um consenso inovador – a parentalidade partilhada, incluindo frequentes pernoitas com ambos os progenitores, para bebés e crianças pequenas, é no melhor interesse para as crianças.

Demasiados profissionais de saúde mental e professores oferecem recomendações sobre planos de parentalidade que são baseados nas suas crenças pessoais – não em dados empíricos. De facto muitos destes profissionais nunca leram os estudos disponíveis. Tal como alguns médicos mal informados dão conselhos desatualizados ou prejudiciais sobre tratamentos médicos, também há profissionais que aconselham juízes e profissionais de saúde mental sem o recurso à evidência científica.

Ainda mais perturbador, muitos destes oradores e escritores apresentam as suas opiniões de forma convincente, como se de facto estivessem a reportar dados empíricos – um disfarce que não só é falso como potencialmente perigoso para as crianças cujas vidas são afetadas pelas decisões dos juízes e profissionais de saúde mental relativamente a questões de convivência parental. Resumindo, muitos juízes e profissionais bem-intencionados foram levados a aceitar orientações que não são baseadas em evidências empíricas.

A parentalidade partilhada não é sobre os direitos dos progenitores. É sobre tomar a melhor opção para as crianças – decisões que estão fortemente baseadas em investigação – não em opiniões pessoais de progenitores, oradores de seminários, profissionais de saúde mental ou juízes.

 

 

Licença Creative Commons
O trabalho Parentalidade partilhada: medicina preventiva para crianças. de Shared parenting: preventative medicine for kids está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://journalstar.com/news/opinion/editorial/columnists/column-shared-parenting-preventative-medicine-for-kids/article_3e650996-5d98-5089-a55e-705e497b634b.html.

Traduzido por Liliana Carvalho.

Revisão e adaptação por Ricardo Simões.

Coordenação: Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e Direito dos Filhos

A ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA PELA IGUALDADE PARENTAL E DIREITOS DOS FILHOS tem por fim as actividades de carácter cívico, cultural, formativo e informativo, no âmbito da protecção e fomento da igualdade parental, nos seus diferentes níveis de intervenção – legislativo, jurídico, psicológico, mobilização da opinião pública, entre outros -, relativamente aos direitos dos filhos (crianças e adolescentes) cujos pais se encontrem separados ou divorciados.